Fartura

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Caminhando entre desmontagens e construções, por Fabio Rodrigues

Partindo de aparições da bandeira do Brasil em alguns filmes do conjunto de inscritos no IX CachoeiraDoc, aparições por vezes fantasmagóricas – em posições coadjuvantes ou desmontadas em primeiro plano –, de modo, muitas vezes, a romper com o discurso de ordem e progresso, sondaremos como alguns desses filmes têm pensado o Brasil a partir do agora, especialmente a partir da retomada do arquivo do agora. O movimento será duplo: ao passo que nos interessa os filmes que falam diretamente “Brasil”, também acolheremos um movimento de filmes em que a retomada de imagens de arquivos,  muitas vezes registros familiares, é acompanhada da construção de legibilidades que nos colocam frontalmente a questão de desaprender/reaprender o país pela memória que se reúne ali ou se constrói a partir dali. Portanto, indiretamente esses filmes falam “brasil” naquilo que essa palavra, por assim dizer, não diz. Nesse caso, uma espécie de arquivo mínimo parece precipitar, ao seu modo, a grande narrativa identitária do país. Em ambos os casos, uma espécie de política de memória parece emergir na relação e aproximação desses filmes tão distintos, aproximados por um fantasma ou uma centelha. A partir desse duplo movimento, pensaremos com o filme Fartura (2019), curta-metragem dirigido por Yasmin Thayná, essa relação que chamamos apressadamente de o “máximo divisor e o mínimo múltiplo comum”, no intuito de dá a ver a disputa pelas imagens colocada em cena. Estruturado em três tempos, o filme de Yasmin pensa a comida em sua relação ritual, na sua sabedoria e fazer ancestral, em sua dimensão de cura e, enfim, na sua multifunção de alimentação do corpo, da alma e dos espíritos. O filme parte de uma quase sintomatologia das fotografias de famílias negras – atendo-se ao modo que se dá a ver a comida na composição da imagem – para pensar como o alimento é um ponto de partilha e conexão: o comer (e o dá de comer) como questão fundamental e de fundamento. As entrevistas seguem, ao longo do filme, em tom de conversa entre as personagens e a diretora, incorporando na paisagem sonora o ambiente festivo em que são colhidos os depoimentos –  note-se que a dimensão da festa não se separa aqui do cuidado e cultivo da vida e nem se confunde com a pura e simples comemoração. Pouco a pouco,  o filme funda um arquivo (porque reúne imagens e relatos tantos e dispersos) que diz de uma memória de luta, de uma força ancestral e, através das fotografias, dos corpos eles mesmos como manifestação. Se, no caso do arquivo do agora, esboça-se a tentativa de desmontar a imagem-símbolo nacional, no segundo, é a memória em construção que faz confronto à identidade nacional.

Fartura (Rio de Janeiro, 2019, 26 min.)

Direção: Yasmin Thayná – yasminthayna@ gmail.com

Sinopse: A partir de imagens domésticas, a comida revela um modo de viver em comunidade.

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