New York, just another city + Teko Haxy – ser imperfeita

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De limbos e saídas, por Patrícia Mourão

If there was ever a festival in limbo it would be called “Oblivion”

Robert Smithson, 1971

Há sessenta dias toda minha experiência visual do mundo externo chega-me a partir de um movimento mínimo, de não mais de 45º, no eixo do meu olhar: da tela do computador ou celular para a janela, atrás da qual uma fileira de prédios, repletos de outras janelas, parecem-me, passados dois meses, um espelho do meu lado da rua – talvez seja  meu eu-felino quem eu veja toda manhã a tomar sol sobre uma máquina de lavar, às 9h45, quando o sol matinal bate anguloso no prédio da frente. Minha existência foi reduzida aos gestos mínimos – do olhar, para cima e para baixo; dos dedos, digitando, clicando, deslizando pela pele da tela. Estou no limbo. 

Mas o limbo não começou dia 16 de março. Esse (ou dia 24, para alguns) foi apenas o dia em que relógios biológicos individuais foram regulados e passaram a viver no mesmo ritmo e pulsação do limbo. O dia em que a minha imobilidade coincidiu com a de muitos. Mas já estávamos no limbo há bastante tempo. 

O limbo não tem saída – benza Deus a Igreja Católica o aboliu recentemente. Ele é a fronteira tornada mundo, pedra, todo. Ele é a experiência da fronteira ampliada até que pareça não haver mais fora. Mas é possível inventar saídas. É um dever inventar saídas. 

Uma saída não é um escape. Uma saída exige ter os pés firmes no chão, exige “ficar com o problema”.  A barra de rolagem é escape. O meu vizinho felino e a angulação do sol sobre o concreto é saída. 

Donna Haraway está aqui. Ela me diz que a tarefa é aprender a “ficar com o problema de viver e morrer bem, com responsabilidade, em uma terra danificada e um tempo denso”. Ela me diz que ficar com o problema é habitá-lo, é estar ficando no presente e não se projetar no futuro. Não somos um ponto cego entre um passado edênico ou assustador e um futuro salvacionista ou apocalíptico – é o que entendo. 

Patrícia FerreiraPará Yxapy está aqui. Ela me chega de uma das minhas muitas janelas abertas no computador. Vejo-a andando em Nova York, na Times Square – na minha lembrança, o ponto mais luminoso, acelerado e demograficamente denso daquela cidade. Um lugar onde tudo é tela e tudo é imagem: as empenas dos prédios, os celulares e câmeras dos turistas. Não consigo imaginar alguém parado na Times Square, olhando fixamente para um ponto. Olha-se o fluxo, a passagem das luzes, das imagens, até que se vire imagem e parte do fluxo. Está-se ali para ser submerso pelo excesso, para se deixar de ser. 

A Times Square é o meu computador durante a quarentena: um sem número de janelas luminosas abertas por onde circulam notícias sobre o delírio Brasil, gráficos com a “evolução da curva do vírus”, mensagens de amigos, de familiares, promoções do rappi, da drogaria, do mercado, do sex shop, textos sobre cogumelos, polvos, algas marinhas, receitas, boletins informativos de exposições virtuais. Eventualmente, músicas concorrentes e diálogos em diferentes línguas também acontecem ao mesmo tempo, sem que eu possa identificar sua fonte. 

A Times Square é a barra e rolagem, a síndrome maníaca de produção de opiniões, diagnósticos e prognósticos. 

A Times Square é o Brasil pós 2018: um gif repetindo um trauma, um buraco no tempo, uma ruptura com o devir. 

A Times Square é a lacração, o grito impotente, o gozo na repetição.  

A Times Square é o limbo.  

A Patrícia me ajuda e me ensina a buscar a saída. Vejo-a na Times Square, filmada por André Lopes e Joana Brandão. E então não a vejo mais; ela tem a câmera dos realizadores na mão. Em questão de segundos, a câmera encontra um pombo, desce ao nível da calçada e fica com o pombo. Há um pássaro na Times Square, indiferente à Times Square; e a câmera da Patrícia. Todo o resto são fantasmas, mortos-vivos presos em um espaço sem tempo. Menos o pombo e a Patrícia. 

Seu deslocamento das luzes para o pombo não me parece produto do desespero, tampouco do desprezo. Ele não é escape, fuga. É saída. 

Vejo-o como consequência de um aguçamento da atenção, um enraizamento no presente; movimento de abertura e acolhimento mais do que julgamento ou recusa. 

A cena dura poucos minutos, um instante, uma pequena emergência no filme. Vou em busca de outras imagens da Patrícia. Encontro-a em outro filme, dessa vez uma co-direção. Ela filma a Sophia, enquanto esta chora. Ela a filma de perto, muito de perto; o foco nunca estável, sempre na iminência de ser reencontrado ou perdido. Escuto-a rindo da Sofia e de seu choro; um riso amoroso, de desconcerto, impotência e piedade, frente à jovem cineasta branca, a qual chora suas angústias e inseguranças éticas. É uma imagem de intimidade entre duas mulheres, no entanto, apartadas por origens e experiências. Patrícia fala de si, sobre ficar presa a um sentimento de raiva, de ódio. Fala sobre estar doente, sobre a solidão e a impotência. 

É como se ela falasse da Times Square.  Ela conta sobre ter ficado dois anos sem andar, imóvel. A memória da imobilidade transforma-se em ponte. Sofia também tem essa memória. De novo, Patrícia encontra uma saída. Não um escape, não uma fuga.  Uma saída na imobilidade.

Penso em Patrícia como um paradigma curatorial em tempos densos, em uma terra devastada. Ela me salva. Com ela aprendo a levantar o olho da janela do computador para as janelas lá fora. Com ela aprendo a acompanhar o sol, a encontrar o gato, a me tornar gato. Com ela quero aprender a viver com o problema, a desacelerá-lo, a sustentar a imobilidade até que seja possível olhar um pouco mais abaixo, um pouco mais acima. 

New York, just another city  (São Paulo, 2019, 18 min.)

Direção: André Lopes e Joana Brandão – tupxi@usp.br

Sinpose: Jovem liderança e realizadora audiovisual, Patrícia Ferreira vem sendo reconhecida pelos documentários que realiza com o seu povo, os Guarani Mbya. Ao ser chamada para debater seus trabalhos em um dos maiores festivais de cinema etnográficos do mundo, o Margaret Mead Film Festival, realizado no Museu Americano de História Natural, em Nova Iorque, Patrícia se depara com uma série de exposições, debates e atitudes que a fazem refletir sobre o mundo dos “juruá”, contrastando-o com os modos de existência guarani.

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Teko Haxy – ser imperfeita (Goiás, 2018, 39 min.)

Direção: Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Sophia Pinheiro – sophiaxpinheiro@gmail.com

Sinopse: Um encontro íntimo entre duas mulheres que se filmam. O documentário experimental é a relação de duas artistas, uma cineasta indígena e uma artista visual e antropóloga não-indígena. Diante da consciência da imperfeição do ser, entram em conflitos e se criam material e espiritualmente. Nesse processo, se descobrem iguais e diferentes na justeza de suas imagens.

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